Jornal do Comércio - 17.06.2005 Manaus - AM

Mistura de culturas acaba mesmo é no bom português  
Caetaninha Cavalcanti



O mercado editorial está movimentado no Amazonas.
Hoje, o escritor Assaad Zaidan apresenta sua obra ‘Letras e História: Mil Palavras Árabes na Língua Portuguesa’, no Sesc (Serviço Social do Comércio), a partir das 17h.

O livro é resultado de uma pesquisa de mais de quatro anos que reúne, em mais de 240 páginas, a influência árabe nos termos que empregamos no cotidiano brasileiro.

Resultado do sacrifício

Para chegar às palavras mencionadas na obra, o autor libanês contou com o conhecimento da língua árabe para identificar a sonoridade dos fonemas e com o auxílio de mais de 20 dicionários. "Usei enciclopédias e vários dicionários, não só de língua portuguesa, mas também de espanhol, latim e até de tupi-guarani", revelou, acrescentando a dificuldade de desenvolver esse tipo de pesquisa. "Depois disso, decidi que nunca mais vou trabalhar com dicionários, porque é um quebra-cabeça", brincou.

Resgate da originalidade

Mesmo tendo enumerado mil palavras, Zaidan acredita que há muitos outros termos árabes presentes, de forma adaptada, na língua portuguesa. "Só escrevi no livro as palavras confirmadas pelos dicionários e talvez eu tenha deixado de observar alguma pronúncia. Mas espero que, se eu não vier a descobrir mais palavras, venha outra pessoa e descubra. Pelo menos o primeiro passo já está dado", destacou.

Além de listar as expressões, o escritor mostra em seu livro a forma original dos termos e, em algumas passagens, relata histórias curiosas que deram origem às palavras, como no caso do termo "tarifa". "Quando os árabes queriam conquistar a Espanha, mandaram um comandante chamado Tarif Bem Amer, para fazer uma vistoria antes de invadir. Esse comandante Tarif montou um posto fiscal. Então todas as embarcações que chegavam no posto perguntavam: ‘Você já pagou Tarif?’. Assim surgiu a tarifa", contou Zaidan.


Hora do Povo - 19.12.2003

Livro resgata contribuição dos árabes ao desenvolvimento da Humanidade
Mais do que a história da imigração e dos imigrantes libaneses, o livro "Raízes Libanesas no Pará" é um resgate da contribuição dos povos  árabes ao desenvolvimento da Humanidade, além de relatar a integração dos libaneses com o povo brasileiro.

Seu autor, Assaad Yoessef Zaidan, nasceu no vilarejo de Rweast El Balout-El Maten, região central do Líbano. Veio para o Brasil em 1953, naturalizando-se brasileiro. Viveu em Alagoas até 1958, transferindo-se para Belém, onde vive até hoje e é membro da Associação dos Escritores Paraenses. Escreveu em língua árabe crônicas para jornais e revistas iraquianas, sendo convidado em 1960 pelo governo do Iraque para assistir as comemorações da Revolução Iraquiana.

Zaidan considera fundamental que "as futuras gerações dos descendentes reconheçam e confirmem que seus antepassados chegaram nesta terra, refizeram suas vidas, construíram suas casas, viveram e morreram no Estado do Pará com os corações cheios de gratidão e fidelidade a este povo e a esta terra hospitaleira". Este amor é resumido nos versos de Rizkalla Tuma, de São Paulo, em "Amor a duas pátrias": "Vieram jovens para jovens terras / dos velhos montes para o novo chão / olhos brilhando, brilho de esperança / e um velho cedro em cada coração".

O autor descreve um breve resumo da história do Líbano e as causas da imigração em massa, inclusive para o Brasil, iniciada a partir de 1711. Com destaque para a guerra civil de 1860, na qual o líder Tanios Chahin encabeçou a revolução maronita libanesa  contra os latifundiários, até as lutas que levaram à declaração da Independência da República do Líbano em 22 de novembro de 1943. Ele lembra que a cidade de Tiro, no sul do Líbano, foi "a primeira cidade do oriente a aderir ao cristianismo em sua totalidade e a eleger um bispo".

A emigração dos libaneses para o Pará se deu na metade do século XIX, época do Ciclo da Borracha. Até 1914 desembarcaram em Belém entre 15 mil e 25 mil imigrantes sírios-libaneses, dois quais um terço foram para o Acre. No Pará, além de Belém, os imigrantes libaneses se deslocaram para os municípios de Cametá, Marabá, Altamira, Breves, Prainha, Monte Alegre, Alenquer, Santarém, Óbidos, Soure, Maracanã, Abaetutuba, entre outros.

Em "Raízes Libanesas no Pará" é descrita a atuação da comunidade libanesa no comércio, na indústria, na lavoura, nas escolas, nas universidades, nos hospitais, na arte, no jornalismo, na construção civil, entre outros ramos da economia.

VALDO ALBUQUERQUE



MIL PALAVRAS ÁRABES NA LÍNGUA PORTUGUESA

João Ferreira (www.Usinadeletras.com.br)
2 de julho de 2005


Foi lançado, com boa participação e interesse cultural, na Biblioteca do Senado, em Brasília, no passado dia 29 de Junho de 2005, o livro "Mil Palavras árabes na Língua Portuguesa". O livro é da autoria de Assaad Yoessef Zaidan, imigrante libanês, residente na cidade de Belém, Estado do Pará. Zaidan chegou ao Brasil quando tinha 19 anos, e em 1958 já era cidadão brasileiro naturalizado.
O lançamento deste livro representa um importante acontecimento cultural. E o senado brasileiro, ao acolhê-lo, deu-lhe essa importância. Primeiro, pelo enfoque da variante genética árabe da língua portuguesa posta em destaque pelo livro. Depois porque o livro tem o mérito de nos dar uma listagem de mil palavras desdobrada lingüisticamente em português e árabe.
Assaad Zaidan é membro fundador da Liga Literária Árabe Brasileira de S. Paulo e membro da Diretoria da Associação dos Escritores do Estado do Pará. No ano de 1963, Zaidan escreve o seu primeiro livro em árabe intitulado "Opinião de um emigrante". São Paulo: El Safadi. No período de 1965 a 1969 chefiou a redação do semanário "Notícias árabes", (em língua árabe) publicado em S. Paulo. De 1970 a 1980 e correspondente do jornal "El Nidah" de Beirute. Em 1980 publica, na cidade de Belém, pela editora Mitograph, seu segundo livro em árabe com o título de "Os sultões do século XX". Em 1987 publicou "Dois poetas emigrados para o Brasil - El Karwi e Farhat" em árabe, pela Editora El Jabal, no Líbano. Em 1991 escreveu seu primeiro livro em Língua Portuguesa que ainda mantém inédito e que se intitula "A Guerra no Golfo". De 1995 a 1999 é correspondente do jornal "El Anwar", um dos maiores jornais do Oriente Médio. Em 2001, o Governo do Estado do Pará financiou a publicação da obra "Raízes libanesas no Pará. História da Emigração libanesa para o Estado do Pará", de sua autoria. Além disso, Zaidan se tornou conhecido também como autor de crônicas e de artigos para jornais e revistas árabes sendo boa sua aceitação no mundo da cultura árabe. Mora no Brasil e sua contribuição cultural tem o valor de ser uma voz que mostra a contribuição cultural dos imigrantes para o engrandecimento do Brasil e de materializar essa contribuição concorrendo para a memória libanesa e árabe no Brasil.
The Portuguese language has influences from the Arab world (Brazil-Arab News Agency (ANBA) 12/08/2005.

The book by the Lebanese Assaad Zaidan identified one thousand Arabic words in the Portuguese language. The text shows that Arab influence in Brazil goes well beyond cooking. Portuguese terms for tariff (tarifa), peddler (mascate), lettuce (alface) and lackey (lacaio) come from the Arabic. In literature, as well as the words, it is possible to see traces of the culture from that region in the work of famous Brazilian writer Guimarães Rosa.

Cláudia Abreu*


São Paulo - An Arab named Tarif Bem Amer set up a fiscal stop in a little island in the Strait of Gibraltar. It was the year of 710. All ships that went from Europe to Africa, from the Atlantic to the Mediterranean, and vice-versa, paid customs fees to the commander. Of saying things like "I have already paid Tarif" so many times, came the term 'tariff' (tarifa, in Portuguese). These and other stories are in the book "Letters and History: one thousand Arabic words in the Portuguese language" by the Lebanese writer Assaad Yoessef Zaidan.

The book takes the reader in an interesting journey through history of the Arab language, its origin, its long journeys and its influences in the spoken Portuguese in Brazil. As well as 'tarifa', another 999 words appear in the Lebanese's text. To gather them together, Zaidan researched in more than 100 bibliographic sources and more than 200 dictionaries. The five thousand books in his personal library weren't enough, the writer sent for more volumes in the Arab world to complement his study.

According to Zaidan, the idea of the book came up in the 1970s, after a meeting with the intellectual Tufic Curban. "He told me he had managed to identify 700 Arabic words in the Portuguese language and that stuck to my mind," tells the writer. Time passed, Zaidan wrote other books in Arabic and, in 1991, the first volume in Portuguese, "Gulf War".

Curban's subject, however, was never left aside. The words in Portuguese that had similar pronunciation as the Arabic were written down, carefully, by Zaidan. After that, one by one, they were confirmed and included in the final text. The book, however, doesn't start by the words; it makes a brief, however precise, introduction about the first languages that led to the Arabic.

Zaidan explains, for example, that the Arabic is written from right to left due to the influence of the Phoenicians, who, in their turn, learned from miners, who excavated the mines with the drill in the left hand and hammering with the right hand. "This form of excavation was transformed into the first text impressions, which only later was passed onto paper. Ink appeared a little before Christ, squeezing coal and gum," he reveals.

The Arab language dates from 1,500 years before Christ; it is one of the most ancient and perfected languages. "It acquired rich heritage from languages from the peoples of the first civilisations and empires established in the Middle East, such as Mesopotamia, Egypt, Syria, Ethiopia, Persia and India," writes Zaidan. "As in any culture, it received many influences, it is the result from a miscegenation," he adds.

Poetry

In the first half, the writer also reserved some space to talk about the importance of poetry in the development of the Arabic. "The Arabs, amongst all peoples in the world, were the ones who loved and versed poetry the most. Each poet was a representative and defender of his tribe, teller of its story, glories and history of its peoples," he writes. Through the poems, they wrote about theology, philosophy, grammar, legendary tales, astronomy and even mathematics and algebra.

According to Zaidan, only the Koran made the Arabs forget a bit about poetry and improved a lot the language in form of prose, with rhyming and creative phrases.

From the Arabic Peninsula to Spain. The Arabs took the opportunity of the internal division in the Iberian Peninsula to invade the region, and took with them all the cultural baggage. Cordoba, in Spain, was as important as Constantinople and Baghdad, known as the cultural capital of the world. Illiterate people were rare in the region and in 1130 began the translations of Arab scientific books to Latin. Works from famous doctors like Al Razi and Avicen (Ibn Sena) were translated.

The relationship with the Portuguese began in the following years. A great example is in the name of various cities. Alenquer, Almerim, Fátima and Foro come from the Arabic. "A simple hint is to know that all words beginning with 'al' have Arab origin. Few people know as well that Fatima is the name of the daughter of the prophet Mohammed," he explains.

Literature

In Europe, the Arabic influenced great personalities. Miguel de Cervantes, for example, quoted many Arab proverbs throughout Sancho Pança's speech in "Don Quixote". Traces of Arab poetry style are also in the works of the German poet Goethe, in Dante's and Victor Hugo's work. The first, reader of the Koran, even wrote the famous poem "West-Eastern Divan".

The Arab influence is also present in works by South Americans. The texts of the Argentinean Jorge Luis Borges and the Brazilian João Guimarães Rosa are marked by the Arab culture. Milton Hatoum, who wrote the preface to Zaidan's book, recalls that in the book "Grande Sertão Veredas", the character Riobaldo meets the Arab family Assis Wababa in the middle the Brazilian wilderness, the 'sertão'.

Still in the second part of his book, Zaidan tells about the two journeys made by emperor don Pedro II to the Arab world. He visited Palestine, Lebanon, Egypt and Syria. It was him who gave permission for the Arabs to immigrate to Brazil. He closes the chapter telling of the Arab families' saga in Brazilian lands. Surnames such as Houaiss, Chalita, Nassar and Yázigi appear in the text.

Zaidan's book has been in Brazilian bookstores since July. The publication was sponsored by the government of the northern state of Pará.

About the writer

Zaidan was born in Central Lebanon, came to Brazil in 1952, learned to speak Portuguese in the state of Alagoas, in the Northeast of Brazil, as he likes to recall, and learned all the regional characteristic language expressions. Since his arrival in the country, he wrote in Arab newspapers and magazines, especially for Iraqi, Lebanese and Syrian vehicles. He was also editor at the "Notícias Árabes" (Arab News) newspaper, from 1965 to 1959.

*Translated by Silvia Lindsey

 

 

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