Jornal "O Liberal" 25/04/2005

Com a Arábia na ponta da língua

Livro do escritor Assaad Zaidan reúne mil palavras que têm origem árabe e conta ainda a história da formação das primeiras letras no mundo         

Esperança Bessa
"A língua é o laço que une os homens para formarem sociedades e nações"(Kamel Jumbalat - mártir fundador do Partido Progressista Libanês)



Que a influência árabe na cultura brasileira é grande, disso ninguém duvida. E não é só nos quibes e esfirras, não. Nós brasileiros temos um pé lá na Arábia muito mais do que imaginamos - e isso vale para quem não tem descendência direta vinda daquelas bandas. Está comprovado na hora em que abrimos a boca e pedimos alface, chamamos alguém de tarado ou calçamos um tênis. Alface, tarado e tênis são alguns exemplos reunidos no livro "Letras e História - Mil Palavras Árabes na Língua Portuguesa", nova obra do escritor Assaad Zaidan.

O livro começa com um apanhado da formação das primeiras letras no mundo. Remonta ao Egito, "mãe da história", segundo Zaidan. "Os gregos chamavam o Egito de Escola do Conhecimento. Lá está a origem das letras e palavras. As primeiras línguas escritas apareceram na Suméria, e os sumaritanos e babilônicos tinham sinais antigos que

gravavam nas pedras", cita. E segue matando curiosidades, como desvendar aos leigos o mistério da escrita árabe da direita para a esquerda. "Esta é a prova de que os fenícios aprenderam o aperfeiçoamento de suas letras com
garimpeiros, que escavavam as minas usando a broca com a mão esquerda e batendo o martelo com a direita. Essa forma de escavação foi transformada em primeira impressão de textos, que só depois passaram para o papel. A tinta surgiu pouco tempo antes de Cristo, espremendo carvão com goma", revela.

A língua árabe propriamente dita data de 1,5 mil anos antes de Cristo. Trazia heranças das línguas das primeiras civilizações e dos impérios que se instalaram no Oriente Médio, como Mesopotâmia, Egito, Síria, e se transformou num conjunto de dialetos, que teve influências vindas da Etiópia, Pérsia, Índia e de caravanas que passavam pela
região. "É como em qualquer cultura, sempre fruto de uma miscigenação de outras culturas", destaca o autor.

A poesia era um forte meio de expressão dos árabes também. Através desse formato, eles escreviam sobre teologia, filosofia, gramática, contos lendários, astronomia e até matemática e álgebra. "Para os árabes, a poesia é o espelho da vida. Eles produziram mais poesias que todos os demais povos do mundo.

Só com o Alcorão conseguiu fazer com que esquecessem um pouco a poesia e melhorassem bastante a linguagem em forma de prosa, com frases rimadas".

Quando os árabes aproveitaram a divisão interna da Península Ibérica para invadir a região, trouxeram junto toda esta bagagem cultural. Córdoba, na Espanha, destacou-se tanto quanto Constantinopla e Bagdá, reconhecida como a capital cultural do mundo. Não existiam analfabetos na região, e em 1130 foi iniciada a época das traduções de livros científicos árabes para o latim. "Grandes personalidades reconheceram a influência árabe em seus trabalhos. Miguel de Cervantes, por exemplo, citou muitos provérbios árabes através de Sancho Pança, em ‘Dom Quixote’. O próprio Cristóvão Colombo afirmou que foram os livros de Averróis, um grande escritor árabe, que o incentivaram e encorajaram a fazer a viagem de descobrimento da América, devidos seus ensinamentos de que a Terra era
redonda", diz.

Assim como atuaram na região onde hoje é a Espanha, os árabes também chegaram onde hoje é Portugal, e daí começou a relação mais íntima na construção da língua portuguesa, por isso Zaidan afirma que não estranha encontrar mil palavras conseqüentes desse contato. Um grande exemplo está no nome de várias cidades, como Alenquer, Almerim, Foro, Fátima e até Belém. "Uma dica simples é saber que todas as palavras que começam com ‘al’ vêm do árabe. Pouca gente sabe também que Fátima é o nome da filha do profeta Maomé". Algumas palavras nasceram até do estranhamento entre culturas. Um exemplo engraçado: um árabe chamado Tarif morava em uma ilha na Península Ibérica, espécie de alfândega onde todos precisam passar e pagar uma taxa. De tanto dizerem expressões como "já paguei o tarif", surgiu o termo tarifa.

O estudioso diz que, no caso do Brasil, a própria formação de Dom Pedro II aumentou a ligação entre as culturas. "Ele visitou países árabes, e foi o primeiro intelectual brasileiro que manifestou a admiração pela cultura de lá", avalia.

Para reunir as mil palavras, Zaidan pesquisou em mais de 100 fontes bibliográficas e mais de 200 dicionários. Interessante para um homem que considera "as letras e palavras as mais importantes invenções humanas", mas que até hoje, mesmo há tantos anos no Brasil (ele veio para cá em 1952), ainda se complica com o português e mantém um sotaque carregado e assumidíssimo, com orgulho.

"Desde criança sempre fui apaixonado pela literatura árabe, mas nunca entrei em um colégio desde que vim para o Brasil. Para piorar, aprendi português em Alagoas, onde me ensinaram a falar oxente e cabra da peste (risos). O português para mim é uma das línguas mais difíceis, e olha que desde jovem escrevo em jornais. Passo noites me concentrando para colocar as frases do livro no lugar", diz o pesquisador que, enquanto escrevia este livro, preparou com mais facilidade outras três obras simultâneas para serem lançadas no Líbano.

"Letras e História - Mil Palavras Árabes na Língua Portuguesa" ainda não saiu da gráfica, nem tem data marcada para lançamento. O prefácio é de Milton Hatoum, cuja família árabe se instalou em Manaus.


Artigo de Pádua Costa em O Diário do Pará

Na quinta-feira 19, a Secretaria de Cultura promoveu o lançamento do livro ‘Letras e História Mil Palavras Árabes na Língua Portuguesa’. Libanês, vivendo no Brasil há 52 anos, particularmente em Belém, onde constituiu família, o autor tem se revelado um estudioso da cultura de seus ancestrais, daí contar, em sua bibliografia, com uma significativa lista de obras editadas em árabe e, posteriormente, na língua portuguesa.

No prefácio, Milton Hatoum ressalta: "O livro de Zaidan examina com rigor e perspicácia a influência árabe na língua portuguesa, que foi menor, mas não menos relevante do que na língua de Cervantes. Como ele mesmo escreveu, a língua é um dos pilares básicos da cultura de um povo e indissociável de sua história. Por isso, o Autor fez um breve, mas minucioso relato da história dos povos árabes, desde sua origens pré-islâmicas até os grandes califados que expandiram a influência árabe-islâmica a vastas regiões da África, Europa e Ásia."  

Ao concluir, salienta: "Um dos grandes méritos de ‘Letras e História’ reside no conhecimento que ele transmite ao leitor brasileiro sobre a cultura árabe, complexa e plural ao mesmo tempo. Uma cultura que soube traduzir algumas obras dos grandes filósofos e poetas da Antiguidade clássica, o que foi decisivo para a cultura do Ocidente."

Com efeito, Zaidan menciona a formação das primeiras letras dos povos da antiguidade, fazendo referências aos sumérios, assírios, aramaicos, babilônios, egípcios, cananeus, hebreus, nabateus. Assinala a participação dos cananeus (fenícios), no que concerne ao aperfeiçoamento das letras antigas, além da divulgação e os ensinamentos desses métodos aperfeiçoados, favorecendo os gregos e outros povos situados em torno do Mediterrâneo. Destaca a evolução da língua árabe, do Iêmen a Meca, abrangendo a época pré-islâmica até o surgimento do Alcorão; do califado de Damasco, incluindo a época de ouro de Bagdá e de Córdoba na Andaluzia.

Nesse trabalho de pesquisa, não poderia faltar a história da influência árabe nos países ocidentais, especialmente dos imigrantes libaneses e sírios, na cultura brasileira. Em seguida, a materialização do objetivo fundamental da obra - o Dicionário de Mil Palavras Árabes na Língua Portuguesa. O autor teve a oportunidade de constatar a existência de algumas palavras utilizadas pelos índios tupi-guaranis, lembrando termos árabes de origem aramaica.

No livro ‘Letras e História Mil Palavras Árabes na Língua Portuguesa’, Assaad Zaidan desenvolve minucioso estudo, relacionando informações bastante válidas para futuras pesquisas. Por outro lado, se evidencia inegável contribuição para o alcance de dias melhores, através de uma aproximação cultural, na atualidade de um mundo, em permanente busca ao encontro da paz.


Matéria Publicada no Jornal "Amazonas Em Tempo"

A obra, fruto de uma pesquisa iniciada em 2001, relata a formação das letras e idiomas. Faz um apanhado do surgimento das línguas desde o ba-ba, na pré-história. Através de um trecho do artigo do escritor, Rachid Chakour, no qual ele explica que as primeiras palavras derivaram-se da reprodução de sons que imitavam o canto dos pássaros (biss-suz), os ventos fortes (hab-sur-khor), as quedas d’águas (chit), a quebra de metais (rin-run-tac) e etc., o autor reforça que "em todas as eras da história do mundo, a necessidade incentivou o homem a criar as mais belas invenções que vieram facilitar sua vida". Assim, as primeiras letras - sinais - foram cuneiformadas pelo povo da Mesopotâmia, às margens dos rios Tigre e Eufrates, e pictografadas pelo povo egípcio, à beira do rio Nilo. E o Iêmen, a primeira região da Arábia a usar a língua escrita e falada.

Em um exame rigoroso e perspicaz da evolução da língua árabe, antes e depois da época de ouro de Bagdá e Córdoba (Espanha), o autor evidencia a sua influência na língua portuguesa, e o que os árabes traduziram e produziram de obras científicas que continuam até os dias de hoje fazendo base para a ciência e literatura humana. Influência essa passada pelos árabes para a Europa através da Andaluzia, e que é marcante nas obras dos pensadores europeus como Victor Hugo, Descartes, John Locke, Roger Bacon e Miguel de Cervantes. Em cárcere na Argélia por cinco anos, o autor de "Dom Quixote de La Mancha" valeu-se do seu contato com a poesia e literatura árabes, que na obra é marcada pela maioria dos provérbios citados pelo personagem Sancho Pança.

Daniel Defoe também valeu-se de fonte verdadeiramente árabes para a criação da sua famosa obra As "Aventuras de Robson Crusoé". No seu caso, o modelo foi a obra de Ibn Tufait hai Bin Yacdan. A obra "Kalilat e Dumnat" foi modelo para o poeta La Fontaine escrever "Provérbios" e para o brasileiro, Monteiro Lobato, escrever "O Sítio do Pica Pau Amarelo". Por essa você não esperava, não é mesmo. No entanto, ao ler "Letras e História", o leitor ainda fará uma viagem pela história das civilizações, com direito a passagens que marcaram a história, algumas, inclusive, pitoresca, através do minuncioso relato do autor, que faz com que se queira saber cada vez mais, dado é a sua narrativa e os fatos. Enfim, como o define no prefácio o escritor Milton Hatoun, "um dos grandes méritos de Letras e Histórias reside no conhecimento que ele transmite ao leitor brasileiro sobre a cultura árabe, complexa e plural ao mesmo tempo"

No mais, o livro ainda traz um dicionário com "Mil Palavras Árabes na Língua Portuguesa"... perdão! 1015, para ser exata. No mais, como bem assinala no prefácio, o escritor Milton Hatoun, prepare-se para Mais uma coisa: se você for ao lançamento do livro hoje, peça para Assaad Yoessef Zaidan (foto) autografar seu exemplar com uma dedicatória em português e árabe, para combinar com a edição, bilingue.

Esse é o segundo livro em língua portuguesa lançado por Assaad Yoessef Zaidan. O primeiro, "As Raízes Libanesas no Estado do Pará", relata a história da imigração nesse Estado; a vida e a influência dos imigrante no desenvolvimento do Estado, e os motivos da imigração em massa do Oriente Médio para o Novo Mundo.
Em agosto e setembro, o escritor lançará, no Líbano, seus livros escritos em árabe: "Gente e História", "Poetas Árabes Emigrados no Brasil" e "Poesia Popular Libanesa no Brasil".


Artigo Publicado pelo Jornal "O Liberal" em 09/12/2003
Nossas raízes libanesas
Por Otávio Mendonça


A 22 de novembro último, os libaneses comemoraram o sexagésimo aniversário da sua independência. Associo-me às homenagens merecidas por esse povo que representa - ao lado de portugueses, espanhóis, italianos e japoneses - a quinta fração mais importante de imigrantes diluídos na população brasileira. Nesses contingentes, os caracteres são diversos, embora possuam em comum dois méritos inconfundíveis. O primeiro é que vieram espontaneamente, enquanto os africanos, durante quatro séculos, aqui chegaram em número muito superior mas não por livre escolha, sim quando e onde os colocaram. Quanto aos libaneses, foram amargas as causas determinantes de abandonarem sua pátria. A quem desejar conhecê-las, recomendo os estudos de George Safady "Emigração árabe no Brasil" e "As raízes libanesas no Pará", de Assaad Zaidan.

O Líbano é de uma das mais antigas e prósperas comunidades daquela região intermediária que se autodenomina Oriente Médio ou Próximo. Seus antepassados foram os fenícios e os cartagineses, senhores marítimos do Mediterrâneo, antes que tal domínio se transferisse para o Império Romano. Dos seus portos - Tiro, Sidon, Biblos - mais tarde Beirute e Trípoli - partiram negociantes que plantaram núcleos do porte de Cádis, Málaga ou Barcelona. Nas suas indústrias pioneiras, desenvolveram-se produtos, serviços e técnicas essenciais, como o alfabeto, os vidros, os perfumes, as balanças, os sistemas de medição, certos instrumentos musicais. Entretanto, a posição geográfica privilegiada, a fertilidade do solo cercado de enormes desertos, a vizinhança do mar, e até a beleza da paisagem fizeram desse pequeno grande povo um alvo predileto de sucessivos conquistadores. Uns após outros, o Líbano foi invadido por egípcios, assírios, persas, gregos, romanos, turcos, ingleses e franceses, seus derradeiros senhores até 1943. Entre todos, os mais duradouros e despóticos teriam sido os otomanos. Foi o temor dessa tirania que os incentivou à emigração.

Sua vinda não resultou apenas da esperança de mais terra ou mais fortuna. Assemelhou-se a uma fuga, que os fazia resignarem-se a condições precaríssimas de sobrevivência. Para o Brasil, os primeiros vieram antes da Guerra Mundial de 1914. Na mesma época, chegaram à Amazônia, atraídos pelo ciclo da borracha, cuja fama de fortuna fácil espalhara-se pelo mundo inteiro. Assad Zaidan descreve em cores fortes as peripécias desses emigrantes: - O drama começava em Beirute, ao chegarem os navios menores e os agentes de viagem anunciarem a hora da partida. Os fugitivos penhoravam ou vendiam seus pertences e corriam para o porto. A penúria aumentava em Marselha, quando o emigrante trocava embarcação para a travessia oceânica. Tiravam-lhe o último tostão antes de viajar na quarta classe, por vezes desembarcado em lugar diferente, onde não conhecia ninguém nem falava a língua local. Abandonado, dormia nas ruas, em completa miséria. Queria fazer qualquer coisa para ganhar o sustento e auxiliar a família distante. Não tinha consulado que o protegesse e precisava de dinheiro para iniciar-se no comércio ou lavoura. Agarrava-se numa tábua de salvação, que era a Caixa do Mascate, cheia de agulhas, linhas, pentes, sabonetes... Era o "badriça", o "primo", o "tec-tec" nas vilas do interior e nos arrabaldes das capitais. Após um século e meio, dessas raízes brotaram frondes generosas.

"Em cada rio, em cada selva, em cada vilarejo, em cada cidade, em cada bairro, em cada rua, no comércio, na indústria, na lavoura, nas escolas, nas universidades, nos hospitais, nos laboratórios, na política, na arte, no jornalismo, na construção civil, na economia e em todo alicerce do nosso progresso, encontra-se um ramo daquelas árvores. São netos e bisnetos dos audazes ascendentes, que recomeçaram a vida na Amazônia. Houve tempo em que os chamavam de turcos, quando estes eram seus algozes. Depois, foram conhecidos como sírios, agora como libaneses. Em verdade, são sírio-libaneses, tal a identidade entre os dois países. Entre eles, nenhuma rivalidade. Daí, tantas entidades esportivas, médicas ou beneficentes em comum.

Testemunhando-lhes a integração nos hábitos, na cultura e no desenvolvimento nacionais, sua independência sexagenária não é uma data de estrangeiros, mas sim uma festa para todos nós.

 

 

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